O Morrer:

Desde pequenos aprendemos que a vida é um ciclo e tem fim. Experienciamos desde cedo o luto de estar longe dos pais nos primeiros dias de escola, o luto de acabar uma atividade que estávamos gostando muito, de um amigo que muda de cidade, da morte de um animal de estimação, até claro, o falecimento de alguém seja uma pessoa distante de nós ou próxima.

Cada dor dói de um jeito, tem um diferente grau de sofrimento e nos consome de uma diferente forma. Temos a plena certeza de que esse momento vai chegar, mas ficamos otimistas e sempre afastando esse pensamento ruim de nossas mentes, que teimam em permanecer num cenário, num contexto onde todas as peças do quebra cabeça de nossas vidas estejam sempre encaixadas.

Afinal, se alguém deixar e fazer parte disso, deixará um vazio insubstituível. Só de pensar nessa ideia o medo já nos assola e geralmente vem acompanhado de desespero ou preocupação.

Por mais que os anos passem, e saibamos que essa possibilidade aumenta para algumas pessoas (independente delas serem próximas ou não de nós), tentamos obviamente afastar sempre esse fantasma que nos assombra, e, a forma de afastá-lo varia de pessoa para pessoa. Algumas oram, outras ficam em negação, entram em pânico só de imaginar aquela possibilidade e por ai vai……

O morrer deixa marcas profundas, rompimentos bruscos e eternos em nossa alma. Sabemos que não temos controle absoluto sobre isso mas gostamos de acreditar que temos, que não acontecerá conosco, com nossa mãe, nosso pai, um irmão, um amigo, um avô…até a hora que ocorre de fato, sem um aviso ou, mesmo tendo essa previsão, até o ultimo fragmento de segundo, insistimos em acreditar que não vai ocorrer. Mecanismo e evitamento de uma dor inevitável.

O Luto:

O Luto entra como preço a ser pago para cada história de perda, de término de ciclo, de desenlace, seja essa finalização de algo envolvendo uma morte ou não. Contudo aqui, nesse artigo, focarei no luto relacionado ao falecimento, morte, desencarne, chame como achar melhor.

Por mais que nos preparemos para esse momento, como no caso de um parente que enfrenta há tempos uma doença grave, o fim só é sim, quando ele realmente chega, e aí não há mais aquela pessoa que existia até aquele momento. Há apenas um corpo, membros.

Como entender e aceitar que aquele corpo que nos abraçou tantas vezes, nos beijos, sorriu conosco, nos ensinou tanto e esteve em tantos momentos, agora não possui mais vida? Que aquele corpo que nos abrigou em momentos ruins, e comemorou conosco em momentos bons, será cremado ou ficará num caixão enterrado a metros abaixo do chão num local tão triste como um cemitério?

Isso é de rasgar o peito, destrói a alma, e nunca entendemos ou aceitamos ao certo, embora, em alguns casos, claro que temos compreensão que a pessoa estava sofrendo demais e precisava ter alivio da dor.

Elizabeth Kübler Ross, escritora e psiquiatra suíço-americana, presenciou e viveu de perto as perdas e o luto dos horrores trazidos pela 2ª Guerra Mundial. Tantas coisas nas quais ela foi obrigada a conviver, fizeram com que escrevesse uma das mais importantes obras sobre esse assunto: “Sobre a Morte e o Morrer”, ou, em seu nome original: ” On death and dying” de 1969.

Nessa famosa obra, traduzida para diversos idiomas e estudada no mundo todo, ela colocou o que estudou uma vida toda e também presenciou muito: as fases do Luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, estágios pelos quais passam os pacientes diante de uma doença fatal ou que potencialmente ameace a vida.

Nos tempos em que vivemos, com números tão agressivos de mortes pela COVID-19, que já nos assolam a cada dia, o que aumenta, também a cada hora, é o número, ainda mais assombroso de pessoas que entram em luto. Para cada pessoa que morre dessa doença, há uma legião que convivia e a amava que entra em Luto.

Ou seja, se o número de mortos pelo Coronavirus já é muito alarmante, o número de pessoas em Luto por essas perdas, é no mínimo 3 vezes maior. Todos estão focando nas mortes, mas poucos falam de quem fica. Da dor que se forma ao tentar superar, enfrentar, entender e aceitar que alguém muito amado se foi.

Imagine toda essa energia de perda, de dor, multiplicada por números estrondosos….Que atmsofera é essa que estamos vivendo? E esse ar ‘pesado’ que estamos respirando? Que sentimentos formam o Luto? Tristeza? Raiva? Frustração? Medo? Arrependimento? Alívio pela dor que acabou?

Pois é…pergunta difícil, cuja resposta variará de caso a caso. Luto é uma dor, um pesar, uma saudade, um sofrimento, um vazio que vai e vem. Que pode ficar anos sem nos visitar e, de repente, volta com tudo, nos fazendo reviver muitas sensações. Assim como, para algumas pessoas, quando ele retorna, já não está mais travestido de dor, mas apenas de uma saudade fraterna, que traz sorriso nos lábios, das lembranças vividas, dos momentos, mesmo que ruins, atravessados e superados.

Quando não falamos, não lidamos com o Luto e não trabalhamos com tudo que ele significa dentro de nós, na intenção apenas de superar a qualquer custo a dor, de vencer aquela etapa e de que aquilo fique pra trás o quanto antes, nos esquecemos que, na realidade, estamos apenas empurrando aquela dor e aquele peso todo para cada vez mais fundo em nosso inconsciente.

Quando esse peso submerge, a partir de gatilhos, lembranças, as vezes estamos fortes e conseguimos engoli-lo novamente jogando para um canto escuro e fundo dentro de nós. Mas quando não estamos tão preparados e fortes assim, submerge como uma bola inflável que se tenta manter no fundo de uma piscina…ou seja, impraticável e impossível.

Por isso para algumas pessoas é tão insuportável a ideia de lidar com aquela dor, pois ela foi apenas, as vezes por anos, suprimida, reprimida, e disfarçada com uma série de outras atividades e formas de preencher o vazio que deixou, contudo, sim, a ferida continua ali, aberta, latejando e ardendo…E um simples band-aid não servirá mais.

Lidar com o Luto é entender o que o ciclo de vida daquela pessoa amada representou para você e, mais do que isso, refletir no que representou para ela mesma, com a ótica dela, tendo empatia, mas ao mesmo tempo, entendendo que você não podia nem devia intervir, interferir, nunca! Nós temos a liberdade de ir até certo ponto apenas, ensinando, inspirando, dando exemplo, explicando, demonstrando etc, porém, JAMAIS podemos fazer pela pessoa, escolher por ela, interferir em seu livre arbítrio! Mesmo sabendo que seria melhor pra ela se você o fizesse. Mesmo assim.

Cada pessoa enfrenta uma realidade só dela, com sua ótica, através de suas histórias e experiências! Sente as coisas de um modo muito peculiar, que podemos achar fácil de decifrar, mesmo assim, ainda é a própria pessoa que terá de vivenciar cada pedacinho daquelas experiências que surgem e que ela desenvolve na vida dela. Podemos dar suporte, ser apoiadores e incentivadores, mas a decisão final de tudo, será sempre dela, isso representa respeito.

Respeito pelos limites saudáveis que temos que ter entre nós, para não invasões e desrespeito desnecessários. Para não haver infrações e simbioses que descaracterizam e tiram a essência e a autenticidade das pessoas, tão importantes para sua existência!

Pensar dessa forma nos ajuda a compreender, cada vez que pensamos mais na pessoa e na perda, o que ela realmente representava em nossas vidas. E também, de fato, o que representávamos na dela. O que muitas vezes está coberto por uma cortina espessa de expectativas, de carências, de frustrações, pois, queríamos ser mais para aquela pessoa, ou menos do que fomos.

Se dê essa possibilidade de DESCORTINAR seus sentimentos e expectativas com relação às pessoas pra olhar com mais clareza e racionalmente para o que essa relação representou em suas vidas. Independente se foi uma mãe, um amigo, um cônjuge, enfim, pra que a dor dê espaço e tempo para os fatos se apresentarem mais “limpos”, tais quais eram, e não sob um amontoado de sentimentos e emoções colocados ali pra facilitar ou pra culpar alguém ou algo sobre essa perda.

Espero que, de alguma forma, este artigo possa lhe ter sido útil. Que tenha feito você “viajar” por ai e entender-se melhor, nem que tenha sido 1 milimetro a mais do que compreendia antes. Trabalhar a aceitação, último estágio que Kübler Ross descreveu em seu livro, é um caminho árduo para a maioria, mas não impossível. Busque fazer esses exercícios propostos acima e, se precisar, peça ajuda profissional! A psicoterapia online está aí para possibilitar e tornar mais leve todo esse processo duro do Luto.

Um grande abraço, com carinho e os votos sinceros de que logo essa pandemia possa terminar e que o Luto que ela está deixando, seja, a cada dia mais, lidado e trabalhado pelos que o sentem, de forma sadia e inteligente emocionalmente.

E que os que se foram, estejam em planos iluminados e protegidos por Deus, sendo acolhidos com muito amor e cuidado, para que consigam ser transferidos para um plano muito melhor do que este. Que assim seja!


Maiores informações: https://www.scielo.br/pdf/csc/v18n9/v18n9a28.pdf | “Uma releitura da obra de Elisabeth Kubler-Ross”. Selene Beviláqua Chaves Afonso & Maria Cecília de Souza Minayo.