*Por Letícia Gonzales

Mindfulness, que traduzido ao pé da letra significa ‘Atenção Plena’, é uma técnica de meditação e exercícios de tradição asiática e que foi adaptada para o Ocidente. Resumindo ao máximo, a ideia é ensinar a ter foco no presente – e não nas expectativas para o futuro ou nos traumas do passado. Tudo com a ajuda da respiração.

Hoje nos EUA há mais de 500 instituições dedicadas a ensinar e praticar o Mindfulness. No Brasil, a secretaria da Educação do Espírito Santo já adotou treinamento para professores e em grandes cidades são oferecidos cursos por centros como o School of Life (‘Escola da Vida’), di suíço Alain de Botton. Os adeptos vão desde a apresentadora americana Oprah Winfrey e de jogadores da NBA como Kobe Bryant, Michael Jordan e James Lebron, até crianças de bairros pobres.

O leque de benefícios que adquiri com a prática é bastante amplo: o Mindfulness é capaz de diminuir dores crônicas e pressão arterial, manter o cérebro jovem (a ponto da ciência estar pesquisando sua eficácia na prevenção do Alzheimer), evitar crises de ansiedade, e depressão e aumentar a criatividade, os resultados nas escolas e no trabalho.

Também auxilia na diminuição do fumo, mesmo quando a pessoa não está tentando parar, e é eficaz para tratar a síndrome do stress pós-traumático, comum a quem viveu episódios de violência (como assaltos, abusos, acidentes etc). Além de amenizar tais quadros, o Mindfulness também está associado a um efeito muito falado, contudo difícil de medir, por ser muito particular e subjetivo: o bem-estar.

Vamos entender melhor:

Se faz calor, você tem consciência do quão quente está. Se percebe uma música tocando no andar de baixo, registra que ouve. Se está com fome, repara no desconforto. E só. Isso seria a atenção plena. Você já sabe onde está, por exemplo, mesmo assim mapeia o ambiente e tudo que acontece à sua volta. Enquanto faz isso, não julga nada nem ninguém, ou seja, você sente o calor,mas não faz planos imediatos de ligar o ar-condicionado, ouve a música ruim do vizinho, mas não o amaldiçoa. É ter consciência e atenção ao que se passa, contudo, não necessariamente se envolver emocionalmente com cada atividade percebida, ou pensamento. Apenas observa e absorve o que se passa ao redor (principalmente dentro da sua cabeça!). Nada fácil certo? Todavia muito possível e ‘alcançável’.

Também da sabedoria antiga chinesa, se chamava a atenção para os males que se enfrenta com a mania de criar expectativas. Chuang-Tzu argumentava: “Quando você participa de uma competição de arco e flecha, se o prêmio é insignificante, atira com perícia. Se o prêmio aumenta, você se atrapalha”.

Em 1979 Jon Kabat-Zinn, biólogo americano, após um retiro teve a ideia de abrir uma clínica experimental com outros dois colegas e passou a ensinar técnicas budistas a pacientes com dores crônicas. Ele coloca: “as reações vieram rapidamente. Os pacientes nos diziam que aquilo havia mudado suas vidas”. Os voluntários passaram não só a relatar níveis menores de dor, como também conseguiram manter uma distância maior em relação à doença, identificando-se menos com os sintomas e mais com as pessoas que realmente eram. Do Brasil à China, bulimia, vício em drogas, ansiedade e até esquizofrenia são tratadas com a técnica.

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Drama interno:

Mas, se a calma faz tão bem, por que temos tanta dificuldade em alcançá-la? A culpa é do nosso cérebro altamente desenvolvido. Ele adora inventar.problemas onde eles não existem. Em uma crise, por menor que seja, nossa mente detecta uma situação de risco e se apronta para matar ou morrer.Acontece que, na maioria das vezes, o perigo não é iminente.

São nossos cérebros racionais e criativos que imaginam a ameaça imediata. “Para o bem e para o mal, temos a capacidade de representar mentalmente as ameaças”, explica a psicóloga Érika Leonardo de Souza, que recebe muitos pacientes bipolares em seu consultório. Esse poder imaginativo nos faz reagir antes da hora e, em demasia, libera mais cortisol, o hormônio do stress.

“Se eu pudesse dizer ao meu cachorro que um rato vai entrar na cozinha daqui a meia hora, ele continuaria a ae lamber. Iria pular ou fugir só quando visse o roedor. Mas, se digo o mesmo a uma amiga, o sofrimento dela começa imediatamente”, afirma. Aplicar o mindfulness ajuda a distinguir pensamentos de realidade e descer os pés da cadeira.

Fatos comprovados:

Em 2005, uma equipe liderada pela neurocientista Sara Lazar fez testes de ressonância magnética em um grupo dividido entre meditadores e não meditadores. Pela primeira vez, encontraram diferenças marcantes na estrutura física do cérebro dos dois perfis. Nos meditadores, o córtex pré-frontal tinha mais massa cinzenta, o que indica mais capacidade de memória e tomada de decisão. Além disso, os cinquentenários desse grupo pareciam ter 25 anos  de acordo com suas imagens cerebrais. Mas, ficou a dúvida, e se essas pessoas já tivessem nascido assim?

Em 2010 seu laboratório fez uma nova pesquisa, dessa vez com apenas com pessoas que nunca haviam meditado. Ao longo de 2 meses, metade seguiu sua rotina e a outra iniciou sessões de 40 minutos diários de técnicas de respiração e visualização. Ao final das 8 semanas, o hipocampo de quem meditou havia crescido. Essa área do cérebro é uma das principais estruturas responsáveis pelo aprendizado, memória e regulação das emoções. A equipe de Lazar, que mantém laboratório em Harvard, reparou em outro resultado: a amígdala, responsável pela reação de sobrevivência, o clássico “luta ou fuga”, havia perdido tamanho. Mais um bom resultado, afinal o acionamento excessivo dessa região gera ansiedade e pode levar à ataques de pânico.

Desde os anos 2000, psiquiatras tratam pacientes com depressão refratária (que aparece várias vezes ao longo da vida), com o mindfulness. O médico Mark Williams, do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Oxford, na Inglaterra, foi um dos responsáveis por mesclar meditação com terapia cognitiva. A MBCT (em inglês: “terapia cognitiva baseada em mindfulness), uma sigla de sucesso. Estudos mostraram que ela tem resultados tão bons quanto o uso de remédios. Hoje o governo do Reino Unido a recomenda como primeira opção na prevenção de novas crises.

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BÔNUS:

Vamos exercitar?!

Um dos exercícios sugeridos na matéria da revista é este abaixo, que deixaremos para vocês como um presente para praticarem sempre que quiserem e quando estiverem com dificuldades para dormir.

Esperamos que gostem e que consigam bons resultados! Grande abraço!

Meditação/relaxamento para a hora de dormir:

  1. Embaixo das cobertas, de barriga para cima e olhos fechados, repare em como o corpo se sente: leve ou agitado? Tenso ou relaxado? Agora, relembre cada momento do seu dia , como num filme: levantou, tomou café, saiu de casa etc.
  2. Não é preciso mais do que 30 segundos para percorrer o dia todo e chegar no momento presente. Respire profundamente e, ao exalar, sinta o corpo afundando um pouco mais na cama, como se estivesse sendo anestesiado, ficando solto.
  3. Então, começando pelos pés, imagine “desligar” músculo por músculo, parte por parte, desde os dedos até a testa. Se ainda não estiver dormindo quando terminar, comece a contar, lentamente, de mil até zero (1000, 999, 998, 997…).

Referência bibliográfica: SUPERINTERESSANTE, edição nº 365, de setembro de 2016. (ISSN 0104-1789), ano 30, nº 11. É uma publicação da Editora Abril.